4 de abril de 2025

A rede Chipotle passou sete anos buscando fornecedores de abacate fora do México

O Chipotle Mexican Grill estava pronto.

Nos últimos sete anos, a rede de burritos vasculhou as Américas e o Caribe em busca de fazendas e fornecedores que pudessem satisfazer sua imensa demanda pela fruta de caroço grande. No passado, o México fornecia 85% dos abacates do Chipotle, deixando a rede à mercê do clima do país e de outros fatores, como o comércio transfronteiriço. 

“Essencialmente, usamos todos os abacates da Califórnia que conseguimos. Temos muito orgulho disso. Mas, obviamente, não há o suficiente”, disse Jack Hartung, diretor de estratégia do Chipotle.

Essa busca global por abacates mostra como será difícil para as empresas em geral enfentar as mudanças nas políticas comerciais do país. As importações mexicanas estiveram sujeitas a uma tarifa de 25% por alguns dias no início de março, antes de o presidente interromper a taxa sobre mercadorias incluídas no pacto de livre comércio da América do Norte. 

[Nota: no anúncio de quarta (2), Trump não incluiu o México (nem o Canadá) na tarifa mínima de 10% que estabeleceu para todos os países; essa passaria a valer, a princípio, caso a de 25% seja extinta].

Cadeias de suprimentos da indústria alimentícia podem levar anos para serem construídas. Em muitas empresas, os executivos estão decidindo se devem redefinir as linhas comerciais para evitar as taxas, absorver custos crescentes ou repassá-los aos clientes.

Santo guacamole 

Os EUA importaram cerca de US$ 3,4 bilhões em abacates do México no ano passado, representando uma das maiores importações de commodities em volume.

Poucas empresas conseguem igualar o apetite por abacate do Chipotle. A rede de restaurantes fast-casual com sede na Califórnia estima que comprou cerca de 5% de todos os abacates consumidos nos EUA no ano passado. Como a produção doméstica é limitada, a maior parte dos cerca de 66 milhões de quilos de abacates que o Chipotle usou em seus 3.700 endereços no ano passado eram importados, segundo seus executivos.

Em 2018, quando o então executivo-chefe do Chipotle, Brian Niccol, assumiu o comando, a rede teve de fazer contas. Para atingir a meta de adicionar cerca de 150 restaurantes por ano, precisava de muito mais abacates. Aproximadamente metade dos pedidos dos clientes inclui a guacamole, uma pasta à base de abacate.

“Começamos a pensar: ‘não seria ótimo se tivéssemos acesso a abacates durante o ano todo, de vários países?’”, disse Carlos Londono, chefe da cadeia de suprimentos da empresa.

O Chipotle expandiu sua equipe de cadeia de suprimentos, orientando o grupo a encontrar novas fontes de abacate. Meia dúzia de países foram identificados, concentrados em locais próximos ao equador, que tinham condições de produzir as plantas que precisam de muito sol. Os abacateiros também precisam de solo bem drenado e longas estações de crescimento livres de geadas.

Outro obstáculo: o abacate Hass, variedade preferida nos EUA, difere dos frutos nativos de muitos países da América Central e do Sul, que tradicionalmente têm um teor de óleo mais baixo e um sabor mais suave. Isso significou anos de trabalho com novos fornecedores para criar abacates gordurosos que atendessem às expectativas da rede. 

Em 2018, Londono, do Chipotle, estava de olho na Colômbia quando foi apresentado a uma promissora produtora de abacate em Medellín chamada Cartama. Londono rapidamente percebeu que conhecia o CEO da empresa, Ricardo Uribe, desde o ensino médio — e descobriu que Uribe passara grande parte das duas décadas anteriores trabalhando para começar a exportar abacates.

Os abacates nativos da Colômbia podem ter três vezes o tamanho dos encontrados nos supermercado americanos, com a casca verde mais brilhante que não resiste bem ao transporte. Uribe procurou outros países produtores de abacate Hass em busca de variedades que pudessem crescer em solos colombianos.

“Cometemos muitos erros”, disse ele.

Em meados da década de 2010, os esforços de Uribe começavam a dar retorno, e quando o Chipotle o procurou, ele tinha acabado de comprar mais de 1.100 hectares extras para plantar abacateiros. Uribe adaptou sua agricultura às especificações da Chipotle e criou maneiras de enviar seus abacates em contêineres para os EUA para que pudessem estar maduros na chegada.

Os negócios do Chipotle transformaram a Cartama, ajudando-a a se tornar uma das maiores produtoras e exportadoras de abacate da Colômbia. A Cartama opera cerca de 7.500 hectares de terra em diferentes elevações para conseguir cultivar abacates o ano todo. A cada semana, a empresa coloca quase cinco milhões de abacates em navios, muitos destinados ao Chipotle, disse Uribe.

O Chipotle ampliou seu fornecimento de abacate, incluindo o Peru e a República Dominicana e, mais recentemente, o Brasil e a Guatemala. A empresa espera no futuro desenvolver novos fornecedores em países como El Salvador e Honduras.

Maduro e pronto

Diversificar as fontes de abacate também cria desafios nas cozinhas do Chipotle. A rede deu às equipes dos restaurantes margem de manobra para adicionar mais suco de limão e sal, dependendo dos resultados dos testes de sabor do guacamole.

Os abacates peruanos e colombianos costumam ser mais leves e verdes do que os que vêm do México e da Califórnia, causando confusão em alguns restaurantes sobre sua maturação. O Chipotle agora atualiza frequentemente os vídeos de treinamento com conselhos sobre como os trabalhadores devem lidar com várias espécies.

“Todos os abacates devem estar maduros e prontos quando chegarem ao nosso restaurante”, disse a empresa em um vídeo de treinamento. “Não os devolvam.” 

Mesmo com uma cadeia de suprimentos mais diversificada, cerca de metade dos abacates do Chipotle ainda vem do México. Em 2020, quando Trump limitou as viagens não essenciais que cruzavam a fronteira EUA-México por um período devido às preocupações com a pandemia, os custos aumentaram. O Chipotle temia escassez caso a situação perdurasse.

O Chipotle normalmente paga de US$ 30 a US$ 35 por uma caixa, mas desembolsou mais de US$ 70 quando os suprimentos diminuíram, disseram executivos. Cada caixa pode ter de 48 a 84 abacates, dependendo da estação, tamanho e local da colheita. 

O Chipotle estimou que seus custos aumentariam dezenas de milhões de dólares anualmente em um cenário de importações mexicanas com uma tarifa de 25%. A rede atualmente avalia absorver o possível golpe em vez de aumentar os preços para os clientes.

Ameaças comerciais a outros países também têm consequências. Em 26 de janeiro, quando Trump ameaçou impor taxas de 25% sobre as importações da Colômbia, a Cartama tinha 50 contêineres de abacates em um navio com destino aos EUA, muitos indo para o Chipotle.

Trump acabou voltando atrás nessas tarifas. Mesmo assim, disse Uribe, “estamos no limite”.

O Chipotle está apoiando pesquisas sobre maneiras de cultivar mais abacates nos EUA, inclusive na Flórida. Mas os executivos disseram que a empresa continuará a vasculhar o mundo em busca de fontes disponíveis para proteger seus estoques de guacamole. 

“O risco de não fazer nada é muito maior e muito pior”, disse Hartung.

Escreva para Heather Haddon em [email protected]

Traduzido do inglês por InvestNews

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