4 de abril de 2025

O que os palestinos pensam sobre o Hamas?

Milhares de palestinos saíram às ruas da Faixa de Gaza na semana passada em um protesto contra o Hamas, pedindo o fim da guerra e um novo governo para o enclave. Foi a maior demonstração contra o grupo desde o início do conflito, há quase dezoito meses, em que foram vistas raras críticas aos militantes, ainda que entre a fúria contra Israel.

Expressões públicas de oposição são extremamente incomuns desde que o Hamas tomou o poder em Gaza, em 2007. O grupo militante vem dispersando violentamente os protestos ocasionais e prende, tortura ou mata quem desafia seu governo. O Hamas viu não nenhum desafio interno ao seu poder desde o início da guerra e ainda controla Gaza, apesar de ter perdido a maioria de seus principais líderes e milhares de combatentes nos combates e ataques aéreos.

“O protesto não era sobre política. Era sobre a vida das pessoas”, disse à agência de notícias The Associated Press Mohammed Abu Saker, pai de três filhos da cidade de Beit Hanoun, que se juntou a uma manifestação. “Não podemos impedir Israel de nos matar, mas podemos pressionar o Hamas a fazer concessões.”

Popularidade do Hamas

Quase todos os palestinos apoiam alguma forma de resistência às ações militares de Israel e à expansão dos assentamentos judeus — que antecedem a fundação do Hamas, na década de 1980.

Em geral, o apoio ao Hamas tende a aumentar em momentos de conflito com Tel Aviv e diminuir durante períodos de calmaria.

O Centro Palestino de Política e Pesquisa, que conduz pesquisas científicas em territórios palestinos por décadas, revelou que antes do início da guerra havia apoio equivalente ao Hamas e ao Fatah, partido que comanda a Autoridade Palestina, que governa parcialmente a Cisjordânia e coopera com Israel em segurança.

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Mas pesquisas feitas depois que o conflito eclodiu mostram que o Hamas tem sido consistentemente mais popular do que o Fatah. A mudança é mais pronunciada na Cisjordânia. Em Gaza, estudos fornecem algumas evidências de que o apoio ao Hamas aumentou ligeiramente logo após o ataque contra Israel em 7 de outubro de 2023, que matou 1.200 pessoas e sequestrou 251 reféns, mas desde então voltou para onde estava antes. O Hamas não tinha respaldo da maioria dos palestinos, em nenhum dos territórios, nem antes nem depois da guerra.

Pesquisas conduzidas durante o conflito, porém, são desafiadoras devido à falta de acesso a algumas regiões, ao deslocamento em massa e a pressão sobre os entrevistados para responder de uma maneira específica. A Associated Press contatou dezenas de palestinos nos últimos meses para consultas sobre o apoio ao Hamas. A grande maioria se recusou a ser entrevistada ou solicitou anonimato, temendo retaliação do grupo — ou de Israel, se expressassem apoio aos militantes. Muitos disseram que só estavam lutando para permanecer vivos.

A ofensiva israelense matou mais de 50 mil palestinos, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, que não faz distinção entre civis e combatentes. O ministério é liderado por profissionais médicos, mas responde ao governo administrado pelo Hamas. Seus dados são avaliados pelas Nações Unidas e especialistas independentes como confiáveis, embora sejam contestados por Israel. Sem evidências as forças de Tel Aviv disseram ter matado cerca de 20 mil militantes.

Cerco à oposição

Desde que tomou o poder da Autoridade Palestina em Gaza em 2007, o Hamas vem reprimindo qualquer dissidência com violência. Grupos de direitos humanos dizem que ambos os grupos palestinos reprimem protestos, além de prender e torturar críticos.

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No passado, o Hamas matou acusados de colaborarem com Israel, bem como algumas que desafiaram seu governo. Moradores de Gaza afirmaram à agência Associated Press que combatentes à paisana têm patrulhado o território durante a guerra, mantendo a lei e a ordem enquanto reprimem críticos.

Mas dissidentes evitam se manifestar por outros motivos. Qualquer crítica percebida à resistência contra Israel é alvo de desaprovação na sociedade palestina e vista por alguns como traição, especialmente durante guerras. Organizadores dos protestos em Beit Lahiya, na semana passada, divulgaram uma declaração pedindo o fim do conflito, ao mesmo tempo em que reafirmavam apoio à luta armada contra a “ocupação” israelense.

Muitos palestinos veem a resistência armada como o único caminho para a independência, uma vez que negociações de paz tem falhado repetidamente.

Sem alternativa ao Hamas

As últimas negociações de paz entre israelenses e palestinos, em 2009, não deram em nada. Mahmoud Abbas, chefe de 89 anos da Autoridade Palestina que tem popularidade baixíssima, ainda se diz comprometido com uma solução de dois estados, enquanto o governo israelense se opõe à criação de um país para os palestinos.

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O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, prometeu eliminar o Hamas e descartou qualquer papel para a Autoridade Palestina em Gaza. Ele defendeu que Israel mantenha um controle de segurança aberto, como faz na Cisjordânia, onde o grupo de Abbas administra centros populacionais. Isso significa que não há nenhuma figura que os oponentes do Hamas possam apoiar, e nenhum plano para o pós-guerra.

A maioria dos palestinos vivos hoje não tinha idade para votar nas últimas eleições nacionais, em 2006, quando o Hamas teve vitória esmagadora. Abbas, cujo mandato terminou em 2009, prometeu eleições repetidamente na Cisjordânia, apenas para adiá-las, culpando as restrições israelenses. Pesquisas indicam que ele não seria reeleito.

O Hamas disse que está disposto a ceder o poder em Gaza a outros palestinos, mas rejeitou as exigências israelenses e dos Estados Unidos para se desarmar e ir para o exílio. Militarizado, o grupo seria capaz de manter a influência no enclave mesmo que deixasse o governo.

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