3 de abril de 2025

O que acontecerá com crimes de guerra russos se ho…

A magnitude das atrocidades cometidas na cidadezinha ucraniana de Bucha não pode ser esquecida. A fuga dos soldados russos, em março de 2022, expôs um cenário de violência tão extrema que é difícil acreditar que tenha acontecido na nossa era. Vários dos responsáveis pelos crimes de guerra – num total avaliado pelos ucranianos em nove mil atos, incluindo o assassinato de 1,8 civis, dos quais 43 eram menores – foram identificados e até julgados à revelia.

Haverá algum dia justiça? Provavelmente, não. Esta é a dura verdade. Se houver um acordo de paz, como o propugnado pelo governo americano, o mais provável é que os crimes nunca sejam punidos. No máximo, haveria um acordo para a devolução de pelo menos uma parte das crianças e adolescentes tiradas de território ucraniano e mandadas para a Rússia, onde ficam em orfanatos ou são adotadas, depois de “russificadas”. É um crime comparável ao programa da Alemanha nazista de sequestro em massa de crianças com características consideradas arianas nos países invadidos durante a II Guerra Mundial.

Na cerimônia em memória das vítimas de Bucha, o presidente Volodymyr Zelensky disse que a Ucrânia tem evidências de 183 mil crimes de guerra cometidos pelos russos – e isso sem incluir na conta os territórios sob ocupação, onde não pode haver nenhum levantamento.

O caso extremo de Bucha, onde a rápida retomada da cidade permitiu que jornalistas fossem os primeiros a constatar e documentar atrocidades, desde fuzilamentos sumários de civis com os corpos tombados nas ruas até um exemplo horripilante da violência sexual exemplificada pela mulher encontrada morta com um tiro na cabeça, usando apenas um casaco de pele, deveria perturbar a consciência de todos, inclusive ou principalmente dos chefes de Estado que vão a Moscou como se nada tivesse acontecido.

Bucha não aconteceu por descontrole ou “excessos” de soldados embriagados pela vitória. As atrocidades foram desencadeadas para infundir o terror entre os ucranianos. Em grande parte, tiveram o efeito contrário: reforçaram a resistência. Note-se que muitos dos crimes de guerra continuam, em especial para os prisioneiros, mas Bucha não se repetiu.

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PUTIN LEVARÁ VANTAGEM EM TUDO?

“Em Bucha, as evidências são arrasadoras e sabemos exatamente quem foram os autores”, disse Kaja Kallas, a ex-primeira-ministra da Estônia que hoje chefia o braço diplomático da União Europeia. Com os recursos tecnológicos atuais “a impunidade para os crimes de guerra é, francamente, impossível”.

Mas impunidade é exatamente o que se desenha. Como a Rússia está numa posição vantajosa no campo militar, qualquer acordo que venha a acontecer não redundará em castigo para os culpados, muito menos um julgamento de Vladimir Putin no Tribunal Penal Internacional.

A Ucrânia aceitará, além de perder território, ver a impunidade dos piores criminosos? Talvez não tenha outra opção. Putin está se sentindo por cima, chegando a fazer exigências grotescas como a substituição de Zelensky por um governo interino internacional.

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Permitirá Donald Trump que Putin leve vantagem em tudo? “A hora da Rússia está chegando”, afirmou o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, depois de passar um dia jogando golfe com Trump na Flórida. É uma visão otimista, talvez produzida pela necessidade de ir contra a corrente de um país como a Finlândia, que pela lógica já estaria há muito tempo ocupada pela Rússia, com quem tem 1,4 mil quilômetros de fronteira e uma história eternamente atribulada.

Trump já chegou a ameaçar a Rússia de tarifas secundárias, ou seja, sobretaxas para os produtos de países que compram petróleo com a assinatura de Vladimir Putin, mas isso está muito longe de acontecer. Ameaças retumbantes são o o oposto da máxima de Teddy Roosevelt – “Fale manso e leve um porrete grande” – e tornam um acordo mais difícil. Que dirá a punição dos crimes de guerra.

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