

Importadores chineses já estão estocando soja brasileira enquanto Pequim retalia contra as tarifas do presidente Trump com taxas sobre produtos agrícolas dos EUA. Fornecedores brasileiros de itens que vão do algodão ao frango apostam no aumento da demanda chinesa. O índice de ações brasileiro, fortemente atrelado a commodities, subiu 9% este ano até o fechamento de terça-feira, enquanto o S&P 500 caiu 4,2% no mesmo período.
Essas preparações refletem uma relação comercial entre Brasil e China que cresceu significativamente nos últimos anos. Rico em carne bovina, minério de ferro e petróleo, o Brasil possui matérias-primas que a vasta população chinesa precisa. Já a China dispõe do capital que a maior economia da América Latina necessita para construir infraestrutura essencial.
Ao mesmo tempo, o Brasil vê oportunidades de aumentar exportações para os EUA e outros países afetados pelas tarifas de Trump, que seu governo planeja ampliar para vários parceiros comerciais nesta quarta-feira.
O Brasil é o maior produtor de calçados fora da Ásia, e sua associação comercial espera enviar mais sapatos para os EUA, substituindo produtos chineses, o que seria um impulso para um país que busca exportar bens com maior valor agregado.
Novas tarifas dos EUA poderiam afetar o Brasil na quarta-feira, quando Trump deve impor tarifas adicionais sobre muitas importações americanas. No entanto, é provável que a China enfrente tarifas ainda maiores, dando aos produtos brasileiros uma vantagem relativa. Embora Trump tenha destacado as altas tarifas do Brasil, os EUA têm um superávit comercial duradouro com o país, o que, segundo economistas, poderia protegê-lo.
André Perfeito, economista-chefe da consultoria APCE, sediada em São Paulo, atribuiu a recente força da moeda brasileira, o real, ao otimismo em torno do comércio global. “Trump está reorganizando o comércio, e isso está criando oportunidades”, disse Perfeito.
Na semana passada, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva visitou o Japão, onde concordou com o primeiro-ministro Shigeru Ishiba sobre medidas para abrir o país para importações de carne bovina brasileira. Atualmente, o Japão importa cerca de 40% da carne dos EUA sob um acordo de 2019, que analistas dizem que pode estar ameaçado após Trump anunciar tarifas sobre importações globais de automóveis.
“Trump não é o xerife do mundo—ele é apenas presidente dos Estados Unidos”, disse Lula durante a visita. “Precisamos superar o protecionismo e garantir que o livre comércio possa crescer.”
Os EUA ainda são o maior investidor estrangeiro no Brasil, que permanece um aliado importante fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O Brasil, grande exportador de aço para os EUA, já foi atingido pelas amplas tarifas de Trump sobre aço e alumínio estrangeiros. Atualmente, o país negocia com o governo Trump para reduzir o impacto dessas tarifas sobre seus produtores de aço.
Ainda assim, investidores e empresários esperam uma repetição do primeiro mandato de Trump, quando o Brasil se beneficiou significativamente das tensões comerciais globais, principalmente por meio do aumento da demanda chinesa. Na época, a China comprou mais soja, grãos e carne bovina da América Latina em retaliação às medidas comerciais dos EUA. Agricultores norte-americanos perderam quase US$ 26 bilhões em exportações agrícolas em 2018 e 2019, segundo o Departamento de Agricultura.
“Essas tensões comerciais provavelmente levarão a China a comprar mais grãos e proteínas do Brasil, reduzindo a demanda nos EUA e impulsionando exportações brasileiras de soja, carne bovina e frango”, afirmou Plinio Nastari, diretor da consultoria agrícola brasileira Datagro.
Desde que ultrapassou os EUA como o maior parceiro comercial do Brasil em 2009, a China investiu mais de US$ 70 bilhões no país, conquistando líderes empresariais e políticos. Empresas chinesas controlam cerca de 10% do fornecimento de eletricidade no Brasil, construíram muitos de seus portos e rodovias e estão construindo centenas de quilômetros de ferrovias. Carros chineses já são comuns em São Paulo, o centro financeiro do país.
Lula tornou as relações com a China uma prioridade, recebendo o líder chinês Xi Jinping em novembro. Em 2023, Lula visitou Pequim, onde uma banda militar tocou uma música de um músico carioca, levando alguns membros da delegação brasileira às lágrimas.
Mesmo antes de Trump assumir em janeiro, processadores chineses começaram a estocar soja brasileira, comprando quase todo o grão necessário para o primeiro trimestre do Brasil—comparado a cerca de 54% do país no primeiro trimestre de 2024.
Os preços também estão subindo. O prêmio para soja nos portos brasileiros—valor extra pago acima do preço de referência—subiu cerca de 70% no mês passado, após a China anunciar uma tarifa de 10% sobre a soja dos EUA. O prêmio chegou a 85 centavos de dólar por bushel para embarque em março, o maior nível em três anos, segundo o centro de pesquisas Cepea da Universidade de São Paulo.
As exportações brasileiras de frango e ovos já aumentaram 9% e 20%, respectivamente, este ano em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo Ricardo Santin, diretor da Associação Brasileira de Proteína Animal. O Brasil escapou do surto de gripe aviária que afetou o comércio global de aves, ampliando seu apelo à China como alternativa aos EUA, após Pequim impor uma tarifa de 15% sobre o frango americano, disse Santin.
Laços comerciais mais profundos entre Brasil e China têm implicações estratégicas para Washington. Autoridades americanas veem uma ameaça econômica e militar na presença chinesa na América Latina, especialmente em projetos com potencial uso militar, como um porto de águas profundas concluído recentemente no Peru e uma estação de rastreamento de satélites na Argentina.
Recentemente, o Brasil tem focado na expansão da limitada rede ferroviária para reduzir custos e combater a inflação alimentar. Em seu projeto inaugural no país, a estatal China Railway está construindo parte da ferrovia Fiol, que conecta o centro agrícola brasileiro aos portos do leste e norte do Brasil.
“A China tem tanto o conhecimento internacional quanto a capacidade de investir”, disse Renan Filho, ministro dos Transportes.
Ao mesmo tempo, algumas empresas brasileiras estão de olho no mercado norte-americano em meio à turbulência comercial.
A China é uma grande exportadora de calçados para os EUA, mas as tarifas sobre importações chinesas podem restringir esse comércio. Fabricantes brasileiros veem uma oportunidade para um setor que se beneficia de uma oferta abundante de couro, graças à forte indústria agropecuária nacional.
“Se não houver tarifas significativas sobre os produtos brasileiros, vemos uma oportunidade de crescimento nas exportações para os EUA, que já é nosso principal destino”, disse Haroldo Ferreira, diretor da Abicalçados, a associação da indústria calçadista brasileira.
Escreva para Samantha Pearson em [email protected]
Traduzido do inglês por InvestNews
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