O índice de argentinos que vivem na linha da pobreza recuou de 41,7% para 38,1% no final do ano passado, primeiro ano de governo do presidente Javier Milei, anunciou o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos do país (Indec) nesta segunda-feira, 31. Trata-se de uma queda de 14,8% em relação ao semestre anterior, quando a Argentina registrou uma disparada de 52,9%, a maior taxa em duas décadas. Ainda assim, mais de 11,3 milhões de pessoas estão em situação de vulnerabilidade.
O Indec considera que um cidadão argentino está abaixo da linha da pobreza quando tem dificuldade em acessar os itens e serviços essenciais, como alimentos e saúde. O cálculo leva em consideração a cesta básica total (bens e serviços), que estava em estava em 356.300 pesos (cerca de R$ 1.906) em dezembro do ano passado, com os valores corrigidos da inflação.
Por sua vez, trata como pessoas em situação de indigência aquelas que não conseguem comprar uma cesta básica e alcançar as necessidades diárias de energia e proteína, sendo uma faixa abaixo da pobreza. Essa última não inclui, portanto, questões como acesso à saúde e transporte. Também em dezembro, o valor da cesta básica de alimentos era de 156.200 pesos (por volta de R$ 835). Assim como no caso da pobreza, esse indicador também apresentou reduções: de 18,1% no semestre anterior a 8,2% no fim do ano passado.
A pesquisa incluiu 31 aglomerados urbanos argentinos. Os resultados mostraram que os jovens e adolescentes são os mais afetados pela pobreza. Cerca de 51,9% de todas as pessoas com idade de zero a 14 anos estão na linha, contra 44,9% dos 15 a 29 anos. Em contrapartida, os idosos passaram a ser menos afetados, atingindo 33,6% daqueles entre 30 e 64 anos e 16% dos que estão acima dos 65 anos. No geral, a pobreza afeta 28,6% dos lares, o que representa uma queda de 13,9 pontos percentuais em comparação ao primeiro semestre de 2024.
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‘Motosserra’ de Milei
Ainda em campanha, Milei prometeu implementar medidas austeras. Surge, nesse contexto, um símbolo que viraria o rosto do seu governo: a motosserra, que mirava cortar os gastos e as funções do Estado, dando espaço à iniciativa privada. No poder, ele avançou com a controversa “terapia de choque” para controlar a economia.
Em junho, conseguiu aprovar a Lei de Bases, um pacote de medidas que, no conjunto, pretende reduzir a presença do Estado na economia, sanear as contas públicas e ampliar os poderes do Executivo. É verdade que a proposta, mais conhecida como Lei Omnibus (para todos, em latim), minguou de 664 para 238 artigos para poder vingar. Daí o apelido que a oposição se apressou a dar ao texto: “Micro-ônibus”.
Um dos mais celebrados tópicos da reforma foi o estabelecimento do Regime de Incentivos a Grandes Investimentos, com o objetivo de destravar a burocracia e dar estímulo a empresas dispostas a investir vultosas somas em solo argentino. Também passou uma anistia fiscal para fundos no exterior, com o objetivo de chamar atenção do dólar para o país.
O resultado, por um lado, parece mostrar prenúncios de melhora econômica: a inflação mensal desacelerou de 25,5% em dezembro de 2023 para 2,7% em outubro do ano passado, no menor índice desde 2020. O peso argentino — que Milei prometeu substituir pelo dólar, mas não cumpriu — valorizou, e as taxas do dólar no mercado paralelo encolheram em até 44%, aproximando-se do valor comercializado oficialmente.
No âmbito social, o ultraliberal também mirou, de maneira controversa, em diferentes questões. Ele anulou subsídios governamentais para serviços básicos, como luz, água e transportes públicos, levando ao aumento dos gastos da população com esses serviços. Além disso, eliminou uma lei que controlava aumentos de preços em produtos da cesta básica nos supermercados.
Ao mesmo tempo, reduziu o reajuste dos salários e aposentadorias — o que levou a protestos, controlados com truculência pelos policiais, aumentando a insatisfação contra o líder argentino. Os salários, por sua vez, parecem aumentar, pouco a pouco, acima da inflação. A curto prazo, segundo Milei, a população pode sentir revezes, como a redução do poder de compra, mas os benefícios poderão ser colhidos no futuro. Se é verdade, ou não, só acompanhando os rumos da volátil economia argentina para descobrir.
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